Do Samhain celta ao Halloween moderno
O Samhain (pronuncia-se 'sou-in') era a festa celta que marcava o fim da temporada das colheitas e o início do inverno no hemisfério norte, celebrada há mais de 2.000 anos nas regiões da atual Irlanda, Escócia e norte da Inglaterra. Para os celtas, na noite de 31 de outubro a fronteira entre o mundo dos vivos e dos mortos ficava porosa — espíritos voltavam à Terra e, para se proteger, as pessoas acendiam fogueiras gigantes e usavam máscaras feitas com peles de animais. No século IX, a Igreja Católica deslocou o Dia de Todos os Santos para 1º de novembro (Hallowmas), e a noite anterior virou All Hallows' Eve — que contraiu para Halloween.
Foi a grande migração irlandesa para os EUA durante a Grande Fome (1845–1849) que levou o Halloween ao Novo Mundo. Lá ele se popularizou nas escolas no início do século XX e foi industrializado entre 1950 e 1970, com fabricantes de doces transformando o trick-or-treat (gostosuras ou travessuras) na engrenagem comercial que conhecemos hoje.
Como o Halloween chegou — e cresce — no Brasil
O Halloween brasileiro tem três vetores de entrada bem documentados:
- Cinema e TV americana — filmes como E.T. (1982) e Os Goonies (1985) introduziram o trick-or-treat ao imaginário infantil brasileiro nos anos 1980
- Escolas de inglês — cursos como Cultura Inglesa, Yázigi e CCAA adotaram o Halloween nos anos 1990 como atividade cultural para alunos infantis e adolescentes; até hoje é a porta de entrada principal
- Festas universitárias — anos 2000 trouxeram o boom das festas temáticas em São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, com bares e baladas adotando o calendário
A polêmica do Dia do Saci como contraponto
Em 2003, o jornalista paulista Sérgio Pirolla propôs ao IPHAN a criação do Dia do Saci em 31 de outubro como alternativa nacional ao Halloween importado. A iniciativa foi acolhida por dezenas de prefeituras (incluindo São Paulo, em 2003) e por sete estados que aprovaram leis estaduais oficializando a data. A intenção: usar a coincidência de calendário para promover o folclore brasileiro nas escolas. Na prática, as duas datas convivem — escolas particulares costumam celebrar Halloween, escolas públicas e movimentos de educação patrimonial focam no Saci.
O Halloween como motor comercial
Embora ainda longe da escala americana (lá é o segundo maior evento comercial do ano, atrás apenas do Natal), o Halloween brasileiro movimenta entre R$ 1 e R$ 2 bilhões por temporada. Categorias com pico nessa semana:
- Fantasias e maquiagem artística — pico anual absoluto do segmento
- Confeitarias e doces decorados — formatos de aranha, abóbora, fantasma
- Decoração temporária — abóboras esculpidas (Jack-o'-lantern), teias de aranha, esqueletos
- Bares, casas noturnas e parques temáticos — eventos com cover Halloween
- Streaming e cinema — gênero terror tem pico anual de visualizações nas duas últimas semanas de outubro