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Cultural

Carnaval: como a maior festa do Brasil foi criada

Atualizado em ·7 min de leitura

Da Entrudo português ao sambódromo do Rio — a história de 500 anos do Carnaval brasileiro e como diferentes culturas moldaram a festa mais famosa do mundo.

Não existe outro país que pare quatro dias inteiros para uma festa profana. O Carnaval brasileiro mobiliza 50 milhões de foliões, movimenta R$ 8 bilhões em turismo e tem versões tão diferentes entre si que parecem festas distintas — o Carnaval do Rio não tem nada a ver com o de Olinda, que não tem nada a ver com o de Salvador. Mas todos descendem da mesma raiz: o Entrudo português, festa caótica que os colonizadores trouxeram para o Brasil no século XVI.

As raízes europeias: do Carnevale ao Entrudo

A palavra carnaval vem do latim carnem levare — deixar a carne. Era a festa pré-quaresmal cristã: nos três dias antes da Quarta-feira de Cinzas, comia-se e bebia-se à vontade, porque os 40 dias seguintes seriam de abstinência. A versão italiana, o Carnevale, virou luxo aristocrático em Veneza ainda no século XIII, com máscaras elaboradas e bailes em palácios. A versão portuguesa, o Entrudo, era o oposto: festa popular, ruidosa, baseada em molhar e sujar quem passava na rua com farinha, água, limões de cera e tinta. Era violenta o suficiente para que diversas câmaras municipais portuguesas, e depois brasileiras, tentassem proibir.

A chegada ao Brasil colonial

Os primeiros relatos de Entrudo no Brasil são do século XVII, no Rio de Janeiro, em Pernambuco e na Bahia. Senhores, escravizados, livres pobres e crianças se misturavam por três dias num jogo de água que beirava o caos. No século XIX, a elite carioca, influenciada pelas reformas do imperador Pedro II, tentou substituir o Entrudo selvagem por bailes de máscara nos moldes parisienses. Surgiram os primeiros corsos: desfiles de carruagens decoradas com famílias ricas jogando confete e serpentinas. Funcionou em parte — a elite migrou para os salões, enquanto o Entrudo popular sobreviveu nas ruas e nas senzalas.

A africanização: o tambor e o nascimento do samba

O Carnaval que conhecemos hoje só nasce com a confluência entre a herança europeia e a tradição africana trazida pelos escravizados. Ranchos, cordões e blocos negros começaram a desfilar no Rio de Janeiro a partir do final do século XIX, com tambores, atabaques e instrumentos de percussão originados nos terreiros de candomblé e umbanda. O samba como gênero musical urbano nasce no Rio entre 1916 e 1920, com a casa da Tia Ciata, no bairro da Praça Onze, como epicentro. Pelo Telefone, gravado em 1916 por Donga, é considerado o primeiro samba registrado oficialmente. A música deu ao Carnaval uma trilha sonora própria, brasileira, diferente da matriz portuguesa.

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O nascimento das escolas de samba (1928)

A escola de samba como instituição surge em 19 de agosto de 1928, no Estácio de Sá (RJ), com a fundação da Deixa Falar — fundada por Ismael Silva e os sambistas do bairro. O nome escola foi escolhido em provocação: o grupo ensaiava ao lado de uma escola normal, e os fundadores queriam que a sociedade levasse o samba a sério. O primeiro desfile competitivo das escolas é de 1932. Mangueira, Portela, Salgueiro e Estação Primeira viraram instituições centenárias. A partir dos anos 1960, o desfile virou indústria: enredos com pesquisa histórica, fantasias com cinco mil pessoas, alegorias de 10 metros e orçamentos milionários. Em 1984, o Sambódromo da Marquês de Sapucaí foi inaugurado, projetado por Oscar Niemeyer.

Os blocos, o Frevo e os Carnavais de rua

Enquanto o Rio profissionalizava o desfile, Pernambuco preservou o Carnaval de rua. Em Recife e Olinda, o ritmo dominante é o frevo — criado no final do século XIX a partir da fusão de maxixe, polca, marcha e capoeira. O passo do frevo, executado com sombrinhas coloridas, é técnico, atlético, quase acrobático. O Galo da Madrugada, em Recife, é considerado pelo Guinness o maior bloco de Carnaval do mundo: mais de 2 milhões de pessoas no sábado de Carnaval.

Em Salvador, surgiu nos anos 1950 o trio elétrico, criado por Dodô e Osmar — um caminhão equipado com som potente que arrasta multidões pelas ruas. O axé music dos anos 1990 transformou o trio elétrico baiano numa máquina internacional de exportação cultural.

O Carnaval hoje

Mais de 600 cidades brasileiras realizam Carnaval oficial. Os destinos consagrados — Rio, Salvador, Recife, Olinda — são complementados por uma onda recente de Carnavais de rua reinventados em São Paulo, Belo Horizonte, Florianópolis e Ouro Preto. O Carnaval gera empregos sazonais para 200 mil pessoas só na cadeia produtiva das escolas do Rio. Por ser data móvel — depende da Páscoa, que depende da lua cheia — sua localização no calendário varia. Em 2026, a terça-feira de Carnaval cai em 17 de fevereiro.