Religiosa

Nossa Senhora Aparecida: a história da Padroeira do Brasil

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Uma imagem quebrada encontrada no Rio Paraíba do Sul em 1717 se tornaria o símbolo religioso mais importante do país. A história da maior basílica do mundo.

Em outubro de 1717, três pescadores tentavam encher suas redes no rio Paraíba do Sul, perto da atual cidade de Aparecida (SP). Estavam ali a mando do conde de Assumar, governador da Capitania de São Paulo e Minas, que passaria pela região e precisaria de peixe fresco. Depois de horas sem nada, lançaram a rede pela última vez. Subiu um pedaço de imagem de barro: o tronco de uma Nossa Senhora, sem cabeça. A próxima tentativa trouxe a cabeça, completando a estátua. A rede começou a se encher de peixe. Estava nascendo a maior devoção católica do Brasil.

O Brasil no início do século XVIII

A região do Vale do Paraíba era rota obrigatória das tropas que ligavam o Rio de Janeiro às minas de ouro em Vila Rica. O catolicismo popular brasileiro misturava elementos da fé portuguesa, devoção mariana medieval e adaptações ao território colonial. Imagens pequenas de santos eram comuns em altares domésticos. A imagem encontrada no Paraíba do Sul — feita por um escultor desconhecido, provavelmente um monge beneditino do Mosteiro de São Bento de São Paulo, décadas antes — era uma representação da Imaculada Conceição, em terracota escura, com cerca de 36 cm de altura.

Os primeiros milagres e a devoção local

Os três pescadores — Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso — levaram a imagem para casa. Construíram um pequeno oratório familiar. Vizinhos começaram a frequentar para rezar diante da Nossa Senhora Aparecida no rio — e os relatos de graças alcançadas se multiplicaram. Em 1745, vinte e oito anos depois, foi construída uma primeira capela pública no morro dos Coqueiros. A cidade que cresceu em torno do santuário, antes chamada de Itaguaçu, passou a se chamar simplesmente Aparecida. A imagem foi oficialmente coroada em 1904, no governo Rodrigues Alves.

De devoção local a Padroeira oficial

Em 16 de julho de 1930, o papa Pio XI confirmou Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil — atendendo a pedido formal do governo brasileiro feito ainda em 1929. A Igreja preparou então a construção de um santuário à altura: a nova Basílica de Nossa Senhora Aparecida, projetada pelo arquiteto Benedito Calixto Neto, começou a ser erguida em 1955 e foi consagrada parcialmente em 1980 pelo papa João Paulo II, durante sua primeira visita ao Brasil.

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A maior basílica do mundo dedicada a Maria

A Basílica de Aparecida, em estilo neorromânico-bizantino, tem 173 metros de comprimento por 168 metros de largura. Sua cúpula central atinge 70 metros. É a segunda maior igreja católica do mundo em área construída, atrás apenas da Basílica de São Pedro, em Roma — e a maior igreja do mundo dedicada à Virgem Maria. Recebe entre 11 e 13 milhões de peregrinos por ano, o que a coloca entre os santuários católicos mais visitados do planeta, ao lado de Lourdes (França), Guadalupe (México) e Fátima (Portugal).

A imagem original ficou guardada em uma redoma de vidro à prova de balas desde 16 de maio de 1978, quando um homem invadiu o santuário e a quebrou em pedaços. Foi restaurada por dois restauradores do Museu de Arte de São Paulo (MASP) ao longo de meses, e os fragmentos foram reunidos com a maior parte intacta.

12 de outubro: feriado nacional desde 1980

Antes de 1980, o 12 de outubro já era marcado por celebrações religiosas regionais, mas não era feriado oficial. A Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980, sancionada por João Figueiredo, estabeleceu o dia como feriado nacional em homenagem à Padroeira. Coincide com o aniversário da chegada de Cristóvão Colombo às Américas (1492), data celebrada em vários países como Dia da Hispanidade ou Dia das Américas — mas no Brasil, o feriado é estritamente religioso.

A devoção hoje

Aparecida (SP) tem hoje cerca de 35 mil habitantes — mas a economia inteira da cidade gira em torno dos romeiros. Há grupos de peregrinos que caminham por dias ou semanas desde cidades distantes, em tradição similar ao Caminho de Santiago de Compostela. O dia 12 de outubro é o pico, com até 200 mil pessoas concentradas no santuário. Cai num período do calendário sem outros grandes feriados próximos, o que reforça seu papel como marco religioso e turístico.