De tradição norte-americana à data mais lucrativa do comércio brasileiro. Saiba como o Dia das Mães chegou ao Brasil em 1932 e se tornou um fenômeno cultural.
Quando você compra flores, almoça com sua família ou liga para sua mãe no segundo domingo de maio, está participando de uma data com pouco mais de 90 anos no Brasil. O Dia das Mães é a segunda data comercial mais lucrativa do varejo brasileiro, atrás apenas do Natal — e o curioso é que sua criadora, uma americana chamada Anna Jarvis, passou os últimos anos de vida tentando justamente acabar com a comemoração.
As raízes americanas: Anna Jarvis e a primeira homenagem
Anna Maria Jarvis perdeu sua mãe, Ann Maria Reeves Jarvis, em 9 de maio de 1905. Ann havia sido enfermeira voluntária durante a Guerra Civil Americana e dedicara décadas a campanhas de saúde pública. Anna decidiu honrar a memória da mãe e organizou, em 10 de maio de 1908, o primeiro Mother's Day formal numa igreja metodista em Grafton, West Virginia. A data caiu num domingo — e por isso, até hoje, a celebração é sempre dominical. Em 1914, o presidente Woodrow Wilson assinou a proclamação que tornou o segundo domingo de maio uma data oficial nos Estados Unidos.
A chegada ao Brasil em 1918 e a oficialização em 1932
A Associação Cristã de Moços (ACM) de Porto Alegre realizou em 12 de maio de 1918 o que muitos consideram a primeira celebração de Dia das Mães em solo brasileiro — uma adaptação direta do modelo norte-americano. A data, porém, era restrita à comunidade evangélica e quase invisível para o grande público.
Só ganhou alcance nacional em 5 de maio de 1932, quando o presidente Getúlio Vargas oficializou o Dia das Mães pelo Decreto nº 21.366. Estava em curso a Era Vargas, e o governo via na valorização da família uma peça importante do projeto nacionalista. O decreto fixou o segundo domingo de maio como data oficial.
A absorção pela Igreja Católica
A Igreja Católica, atenta ao crescimento do protestantismo, adotou rapidamente a data. Em maio de 1947, dom Jaime Câmara, então arcebispo do Rio de Janeiro, instituiu a Semana das Mães no calendário religioso brasileiro. A coincidência com o mês de Maria, tradicionalmente dedicado à Virgem pela Igreja, foi um trunfo: a mãe terrena passou a ser celebrada na mesma semana em que se celebra a mãe espiritual. Esse alinhamento ajudou a fixar a data no calendário cultural do país de forma muito mais profunda do que apenas o decreto presidencial.
Como o Dia das Mães virou a segunda maior data do comércio
Os primeiros anúncios de presentes para o Dia das Mães em jornais brasileiros aparecem nos anos 1940. Nas décadas seguintes, com a explosão da publicidade na TV, perfumarias, floriculturas, joalherias e magazines transformaram a homenagem em ritual de consumo. Hoje, segundo a Confederação Nacional do Comércio, o Dia das Mães movimenta mais de R$ 30 bilhões por ano no Brasil — número só superado pelo Natal.
Ironicamente, Anna Jarvis já em 1923 criticava a comercialização da data e chegou a ser presa em 1948 por protestar contra uma campanha publicitária da American War Mothers. Morreu naquele mesmo ano num sanatório, após anos tentando reverter a transformação comercial da data que ela havia criado.
A data hoje
Diferente de muitos países que celebram a data em março (Inglaterra), agosto (Argentina) ou outubro (Polônia), o Brasil segue o calendário norte-americano. O segundo domingo de maio é, há quase um século, o dia em que avós, mães e madrastas recebem visitas, ligações e mensagens. Não é feriado oficial, mas é o domingo de maior movimento em restaurantes e o de maior circulação de flores do calendário brasileiro.