O conflito armado mais longo da história brasileira durou 10 anos. Por que o RS ainda celebra com tanto orgulho os farrapos que foram derrotados?
Foi a maior e mais longa guerra civil da história do Brasil — durou quase dez anos. Começou em 20 de setembro de 1835, quando rebeldes liderados por Bento Gonçalves tomaram Porto Alegre. Terminou em 1º de março de 1845, com um acordo de paz negociado. A Revolução Farroupilha não conseguiu independência permanente, mas marcou tão profundamente a identidade do Rio Grande do Sul que, quase dois séculos depois, o dia da sua eclosão é feriado estadual e a data civil mais importante do calendário gaúcho.
O contexto: o RS imperial em 1835
Em meados do século XIX, o Rio Grande do Sul era a região mais militarizada do Brasil. Fazia fronteira viva com a Argentina, o Uruguai (que tinha acabado de se tornar independente em 1828) e ainda guardava memória recente da Guerra da Cisplatina. A economia local era baseada na pecuária e na produção de charque — carne salgada e seca, alimento essencial dos escravizados nas fazendas de café do Sudeste e Nordeste.
O problema era o imposto. O charque produzido no Rio Grande pagava impostos elevados, enquanto o charque importado de Buenos Aires e Montevidéu entrava no Brasil com tarifa baixa. O resultado: os estancieiros gaúchos viam-se em desvantagem competitiva no próprio mercado nacional. Somava-se a isso o centralismo administrativo do regime regencial (dom Pedro II era ainda criança), que limitava a autonomia provincial e nomeava presidentes de fora para a província.
Bento Gonçalves e o estopim
Bento Gonçalves da Silva era estancieiro, militar, maçom e tinha contatos com os movimentos federalistas argentinos e uruguaios. Em 20 de setembro de 1835, ao lado de outros líderes como Onofre Pires e Antônio de Sousa Neto, tomou Porto Alegre e depôs o presidente da província, Antônio Rodrigues Fernandes Braga. Em 11 de setembro de 1836, depois da Batalha do Seival, foi proclamada formalmente a República Rio-Grandense, com capital provisória em Piratini.
A República Rio-Grandense
A nova república adotou bandeira tricolor (verde, vermelho e amarelo) — que segue sendo o pavilhão do estado até hoje. Houve constituição, congresso e moeda própria. Bento Gonçalves foi eleito presidente. A república chegou a controlar parte do território catarinense, com a fundação da efêmera República Juliana, em 1839, em Laguna. Estimativas indicam que cerca de 3 mil pessoas, entre soldados regulares e milicianos, sustentavam a estrutura militar farroupilha no auge do conflito.
Anita e Giuseppe Garibaldi
Em 1839, durante a campanha em Laguna, o líder revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi — exilado no Brasil por razões políticas — comandava parte das tropas farroupilhas. Foi ali que conheceu Ana Maria de Jesus Ribeiro, depois conhecida como Anita Garibaldi. Ela tinha 18 anos, abandonou marido e família para acompanhá-lo em batalhas, e viraria figura central da unificação italiana décadas depois. Anita morreu em 1849, lutando ao lado de Garibaldi nas guerras pela unificação da Itália. É uma das poucas mulheres brasileiras com estátuas em mais de um país — incluindo Roma, Nice e Tavolara.
A derrota negociada com honra
A guerra durou 10 anos, esgotou os recursos da província e desgastou ambos os lados. O Império, depois de várias derrotas, mudou de estratégia: o duque de Caxias, Luís Alves de Lima e Silva, foi nomeado comandante imperial em 1842 com poderes amplos para conduzir tanto a guerra quanto as negociações. Em 1º de março de 1845, foi assinado o Tratado de Ponche Verde, em Vacaria. Os termos foram, para uma derrota, generosíssimos:
- Anistia ampla para todos os combatentes
- Manutenção das patentes militares farroupilhas no exército imperial
- Libertação dos escravizados que lutaram pela república
- Aumento das tarifas sobre charque importado (a principal reivindicação econômica)
- Indicação de presidente da província pela elite local
Os farrapos não venceram, mas tiveram suas demandas atendidas. Daí a expressão repetida no Rio Grande até hoje: perdemos a guerra mas ganhamos a paz.
Por que o gaúcho ainda celebra os farrapos
A Lei estadual nº 4.850/1964 estabeleceu 20 de setembro como Dia do Gaúcho. A data não celebra uma vitória — celebra a identidade construída durante uma derrota honrosa. As tradições culturais associadas ao período (chimarrão coletivo, traje de bombacha, churrasco, danças em CTG — Centros de Tradições Gaúchas) cristalizaram-se nas décadas seguintes como símbolos da regionalidade. Em todo 20 de setembro, há cavalgadas, desfiles e a chama crioula que percorre o estado em revezamento simbólico. Para o calendário civil, é o feriado mais importante do RS — e o que melhor representa como uma derrota militar pode virar vitória cultural permanente.